quarta-feira, março 13, 2013

O grande problema do amor


O grande problema do amor é que dá muito trabalho e há muitas pessoas que até nisto querem antes um emprego. Um emprego onde não as chateiem muito, onde façam o que têm a fazer, onde não inventem coisas novas - isso não, com os diabos! - nada de ideias extra, nada de esforços suplementares, nada que os obrigue a ficar nem mais um minuto depois da hora de saída. Mas o amor não é um emprego e não tem toque de saída, porque não tem saída.

E é isto, desde logo, que o distingue de um emprego. Num emprego entra-se às 9 e sai-se às 5, no amor estamos em regime de internato. Não conheço ninguém que não ame 24 horas por dia e já o mesmo não digo a quem preferiu a via do emprego. A minha sábia avó quando parcas vezes lhe apresentei uma namorada, olhava para ela e dizia sempre em tom de resignada comiseração “Mal empregada filha, mal empregada!” Justamente por isto, por perceber que a miúda não iria ter ali um bom emprego, por olhar para mim como um banco que fecha às 5, quando sempre lhe disse que era uma loja extra avozinha (daquelas que não fecham às 2), urgências de hospital, esquadra de polícia.

O amor que dá trabalho está aberto 24 horas por dia, não fecha nunca, quando muito coloca na porta um “ Volto já” e volta mesmo. Pelo contrário, o emprego pode sair às 5 da tarde e já não voltar às 9 da manhã. Por isso se diz que há muito trabalho, mas pouco emprego. O amor que dá trabalho - que é deste que estamos a falar- é daquele trabalho duro que suja a roupa, onde tem de se usar um daqueles capacetes amarelos fluorescentes, daqueles óculos especiais que os ministros usam quando visitam minas ou siderurgias nacionais. O emprego no amor, não usa nada disto. Faz o trabalhinho, mas de preferência sem sujar os calções, de preferência sem partir as unhas. E é por isso, por o amor dar muito trabalho, que há tanta gente no desemprego.

Fernando Alvim

Publicado originalmente no jornal i



PS: "Sejam Felizes!"


quinta-feira, março 07, 2013

Deixa-te levar


O problema de tudo isto é não nos deixarmos levar, seria tão mais fácil se o fizéssemos. Mas não, a desconfiança que se instalou em nós impede-nos disso. A mesma que de nós se apoderava, no tempo em ainda não existia uma moeda única como agora existe o euro. Ia-se a Espanha comprar caramelos, enchia-se o saco com as pesetas cambiadas e ficava-se ali, de olhar desconfiado, a ver se o homem se enganava nos trocos. E o homem dava-nos o troco e mesmo depois de termos confirmado que estaria certo – e estava certo - ficávamos sempre com a sensação, que de uma forma ou de outra, teríamos sido levados. E se calhar, tínhamos.

Crescemos a ouvir isto: “ Tu não te deixes levar!” e só agora percebo o mal que nos terá feito. Crescemos tanto, ficamos tão adultos, tão sábios, tão certos de tudo e de todos, que desaprendemos a deixar-nos levar. E eu quero deixar-me levar, como quando eu era mais pequeno e alguém me dizia “ vamos por ali!” e eu, sem que conhecesse o caminho, ia por ali, deixando-me levar, até que o fim do dia me devolvesse a casa ou uma carrinha daquelas camarárias.

O mundo está perigoso, dirão. Está bem, concordo, mas não é por isso que eu deixarei de sair à rua. Do mesmo modo, que não me deixarei de entregar a quem pouco ou nada saiba. Por mim, pode ser às escuras, que eu já vejo tanto. Por mim, pode ser já agora que amanhã é longe. E não quero saber de tudo, não preciso. Mania esta de que querermos saber tudo com detalhe. Eu não. Quero ter dúvidas e muitas de preferência. Quero ter boas dúvidas. Quero sentir que pouco ou nada sei sobre aquela pessoa como se esta fosse um livro novo que ainda não começamos a ler. E não, não quero saber a história, não preciso que me contem o filme todo porque já tenho o livro e quero lê-lo. Do mesmo modo que tenho uma vida e quero vivê-la sem grandes sinopses. Eu não quero saber de tudo. Que graça tem explicarem-me tudo, antes mesmo de eu o ter percebido. Isso é contarem-me o filme e eu quero ir vê-lo à sala de cinema.

E aqui chegado, o que eu quero, é deixar-me levar mesmo que perceba que me estou a deixar levar. Era preferível que não percebesse mas o que é querem? a idade adulta deu cabo disto. Por mim podem enganar-me à vontadinha, dizer que o amor é para sempre e que o Benfica ainda vai ganhar o campeonato – eu acredito, vos juro - podem afiançar-me que eu sou a única pessoa na vossa vida e a mais importante de todas elas – eu acredito, eu acredito – que é bom investir agora em acções – em compro, eu compro.

Daí que não queira fazer mais perguntas, por mim, está bom assim. Quero deixar-me levar. Já hoje. Daqui. Agora."

Fernando Alvim


PS: "Sejam Felizes!"

quarta-feira, março 06, 2013

Lição Nº. 1




As coisas simples são sem dúvida o melhor da nossa vida
Mas complicamos tanto que elas ficam sem saída.

Lição n . 1 do manual :

"Procurar a virtude no simples e natural"



PS: "Sejam Felizes!"

sábado, fevereiro 16, 2013

Não fosse isso e o amor seria tão simples



O grande problema do amor é não nos poder ser dado por alguém que escolhamos como certo e saibamos ser o melhor para nós. Desafortunadamente, o amor não se escolhe assim – antes fosse – e na maior parte das vezes opta justamente pelo sentido inverso. E do mesmo modo que existem doenças que precisam de um dador certo de medula para se curarem, também o amor não pode ser dado por qualquer um. E isso é que é o cabo dos trabalhos. Não fosse isso e o amor seria tão simples.

Que pena não haver uma marca branca para o amor, como agora se faz para alguns produtos de supermercado. Tão bom seria se, precisados de amor, simplesmente o adquiríssemos junto de quem estivesse disposto a dar-nos. O problema é que nós precisamos de estar prontos para recebê-lo. Senão, era muito fácil: ia-se à prateleira, tirávamos a quantidade de amor necessário para nos alimentarmos e, findo o stock, regressaríamos ao mesmo local para nos reabastecermos. Há quem faça isto com o sexo – e com o sexo dá e é muitíssimo bom – mas, com o amor, não se metam nisso. O amor não tem one night stand. Amar alguém não se pode fazer quando nos apetece, exige militância, acordar cedo para estar esticadinho na formatura.

Amar é estar nos quadros de uma empresa em lugar ministeriável, ter sexo é ser colaborador a recibo verde. Por isso é que há mais gente a ter sexo do que a amar – e reparem que não estou a adoptar nenhum dos lados –, mas quem ama pode ter sexo e quem tem sexo pode nunca conseguir amar.

Fernando Alvim

PS: "Sejam Felizes!"

terça-feira, fevereiro 05, 2013

E tu? Como és?


Perguntaram-me estes dias como é que eu era... sem dar conta, apercebi-me que descrever-me não é uma tarefa nada fácil. O que me ocorreu no momento foi basicamente: "vivo de sentimentos". E foi essa a minha resposta. Foi algo espontâneo, mas que na realidade é mesmo essa a minha melhor auto-descrição que podia dar à pessoa que me questionou.
Toda a minha vida, desde que me lembro, vivi de sentimentos. Sentimentos esses que definiam o que eu era, o que fui e o que vou sendo a cada dia que passa. Sentimentos bons que se tornaram maus, sentimentos maus que se tornaram bons.
Sempre fui movido pelos sentimentos. Sentimentos simples, como um sentimento de contentamento ao passar por uma criança na rua e ela lançar-me um sorriso, ou um acenar com a mão em sinal de adeus, como sentimentos mais profundos e que nos amarram e não nos deixam pensar em mais nada nem ninguém. O amor, a amizade, o sufoco, o ódio, a alegria, a tristeza... São estas as variantes que alteram a minha vida. São os sentimentos, não só os que descrevi a cima, mas todos os possíveis e imaginários, que me movem e que definem o meu dia, a minha semana, o meu mês, o meu ano.
Uma simples mensagem de bom dia (inesperada) pode mudar o meu dia... um simples abraço de alguém que me diga algo, um beijo mais demorado... um dar as mãos. Uma volta de carro a meio da noite, a sentir o vento, o silêncio, a noite. São simples gestos e situações que eu, como sentimentalista que sou, dou demasiada importância.
Tudo este pensamento surgiu-me através da pergunta "E tu? Como és?". E com esta pergunta, essa pessoa fez me sentir perdido, sem saber o que dizer. E só agora, que penso, tive a certeza de que a resposta dada não podia ser melhor e mais verdadeira.

Eu vivo de sentimentos... e tu?


PS: "Sejam Felizes!"

terça-feira, janeiro 15, 2013

Importa soberanamente que não amemos



"Amar é cansar-se de estar só: 
é uma cobardia portanto, 
e uma traição a nós próprios
 (importa soberanamente que não amemos.)"

Fernando Pessoa


PS: "Sejam Felizes!"

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Mas se a vejo tremo...



(...) 
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
e eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. 
(...)

Alberto Caeiro

PS: "Sejam Felizes!"